Sobre a Engenharia e a Coragem de ser o Idiota
Raramente compartilho algo, mas achei esse texto interessante e já aviso: não é sobre IA. É sobre um comportamento curioso que observo em times de tecnologia.
Raramente compartilho algo, mas achei esse texto interessante e já aviso: não é sobre IA. É sobre um comportamento curioso que observo em times de tecnologia.
As pessoas preferem parecer inteligentes a reduzir a probabilidade de estarem erradas. Parece sutil, mas não é. O sênior evita perguntar porque, em teoria, deveria saber. O júnior evita perguntar porque quer demonstrar que estudou o suficiente para estar ali. No meio disso, todos seguimos adiante com pedaços incompletos de contexto. É como alguém que monta um móvel olhando apenas metade do manual. Às vezes funciona. Na maioria das vezes nasce uma arquitetura estranha, um fluxo mal interpretado ou um bug que ninguém entende de onde veio.
Curiosamente, quase sempre existe um momento anterior onde uma pergunta simples teria evitado tudo — mas ninguém quis ser “o idiota da sala”.
Li um artigo recentemente, oBe the idiot, que trata exatamente disso. Existe uma espécie de vergonha operacional em admitir ignorância. Engenharia de software, apesar de todo o discurso racional, ainda carrega muito teatro de competência. Só que sistemas complexos não ligam para reputação; eles respondem apenas à causalidade. Contexto incompleto somado a uma suposição confiante é a fórmula para o erro sofisticado.
Perguntar cedo parece burrice por alguns minutos; não perguntar cria semanas de investigação depois. É por isso que gosto dessa ideia de “ser o idiota”.
O autor cita o protocolo militar, onde a repetição da informação é obrigatória. Não é porque o receptor é incapaz, mas porque confirmar o entendimento é mais importante do que parecer esperto. Na nossa área, isso significa ser irritantemente específico: "Update de qual schema? No source ou no warehouse? O que acontece quando falhar?".
O "idiota" pergunta o óbvio, desmonta premissas e às vezes interrompe a reunião com algo desconfortavelmente simples. Mas é quase sempre essa pergunta que revela que metade da sala estava apenas fingindo entender.
É claro que nem sempre me lembro de ser o idiota e acabo cedendo ao ego. Mas, na minha visão, como grupo social, precisamos habilitar as pessoas para que elas pensem e tenham essas preocupações com a clareza. Sua função como engenheiro não é soar brilhante em reuniões, é construir a coisa certa. E você não constrói a coisa certa se não estiver disposto a parecer estúpido o suficiente para entender o que "certo" realmente significa.
Valorizo "os idiotas".